segunda-feira, 15 de outubro de 2012

DIA DO PROFESSOR


Hoje é dia do professor. A data anda meio esquecida – não pelos profissionais da área, mas por grande parte dos segmentos da sociedade brasileira.

Não é esse, certamente, o motivo para não celebrar – com júbilo – o fato de professar a profissão docente, que acontece no cotidiano das escolas, mesmo quando o mar pareça estar para poucos peixes.

É fato que alguns professores remam com os braços doridos, arrastados por ondas gigantes, solapados por ventos fortes, desanimados com a pesca diária. O arrastão nem sempre tem motivado a busca do bom pescado.

Há, também, aqueles que ainda vêem nos ventos oportunidades de mudanças e conseguem compreendê-las como necessárias à descoberta doutros mares, doutras terras, e, então, reaprender para decodificar outras cartas de navegação.

Há os que ainda se encantam com o mar, não menos do que com os peixes, e, nesse entrecruzar de encantamentos, tecem redes, trazem o pescado bom para o barco e o encaminha a inesperados destinos.

Um dia, desses marcados movimento da vida, no milagre da multiplicação dos peixes, o remador-ensinante encontra um peixe ali numa clínica, num escritório, numa loja, alguns na magistratura, na indústria, no esporte, no campo, e muitos outros que retornam ao grande oceano onde se aprendeu, para, então ensinar e atravessar canais, ondas e ventos novos.

Por isso, hoje é dia de festa e de vida! Dia do Professor, apesar das águas revoltas, dos peixes não fisgados e da própria necessidade de recuperar a identidade profissional. É feliz quem, ao viver da pesca, a ela dá, não tira o mar!

 

 

 

Texto originalmente publicado no Jornal Bom Dia Rio Preto – outubro de 2008

domingo, 7 de outubro de 2012

De portões fechados


Setembro: um mês esperado. Não explico o porquê da espera, mas neste dois mil e doze, minha espera por ele foi grande.  Possivelmente os dias quentes e secos de agosto forçaram tal espera ainda mais, talvez a esperança de um bocado de chuva, talvez dias amenos movessem a esperança por “entrar setembro”.
E os dias de setembro vieram. O ar continuou seco e pesado por uns dias até que a desejada chuva chegasse para dar ao mês a cara dele. E trouxe sorriso e trouxe frescor e trouxe chuva, vida, afinal.
Curiosamente, estava num período de final de férias e fiz uma única curta viagem.  De passagem pela região em que transitava, resolvi visitar o túmulo de um ente querido numa pequena cidade. O cemitério local não é do tipo marcado com tumbas imponentes e mausoléus elegantes. Não! Há algumas peças bem antigas que remetem ao tempo da história dormida da gente do lugar, alguns túmulos simples, mas revelam ali fotos de seus ilustres moradores.
A maioria das covas do lugar é identificada com placas discretas no chão, sem apresentar mausoléus ou imagens de santos suntuosas. Os túmulos mais antigos deixam letras, palavras e homenagens nas singelas lápides já quase se apagando. Tudo é muito típico da paisagem no lugar, muito verde, muitas árvores, inclusive uma seriguela em frutos, percebi de minha última estada. Como a pequena cidade, o seu cemitério parece revelar a vida daquela paragem.
Na entrada do prédio, um pouco distante do centro da pequena cidade, uma placa sinaliza que o espaço público é aberto diariamente à visitação, das 08h00 às 17h00 horas. Cheguei bem defronte do portão e vi que ele silencioso velava pelo silencio do lugar e ainda eram 16 h e 30 min. Estranhei o fato e até imaginei que fosse feriado na cidade, em plena segunda-feira. Resolvi descer as ruas das cercanias e perguntar a algum vizinho sobre o ocorrido, mas não havia nenhum vizinho à vista ou em casa.
Desci um pouco mais a rua e vi três rapazes ao redor de um carro. Pensei comigo que eles talvez soubessem algo. Ao perguntar-lhes eles disseram ter visto os dois funcionários descendo ao Almoxarifado da Prefeitura alguns minutos antes e sinalizaram que eles ainda estariam por perto.
Resolvi acompanhar o cortejo dos dois funcionários que, segundo informaram, estavam de bicicleta, mas que eles a empurravam, não a montavam, logo a razão de não estarem longe dali. Alcancei os moços e perguntei-lhes sobre a razão do fechamento do campo santo, ao que me disseram que doravante o lugar fecha mais cedo, pois os funcionários precisam bater o ponto e ir embora.
Ao conversar com eles disse que a placa marcava dezessete horas o tempo de fechar as portas. Eles disseram que era a nova lei. Perguntaram se era algum sepultamento ou afim, e respondi que apenas queria levar flores e visitar um túmulo de parente.
Um deles se prontificou a voltar. Minha mulher ficou com dó e não achou justo tirar o sossego dos rapazes ao final de um dia de labuta. Mas, negociou pedindo a chave do cadeado do portão principal emprestada que, de pronto foi atendida.
Perguntei o nome dele e pedi que me esperasse que retornaríamos antes das dezessete a fim de não causar atraso (supondo-se que a jornada de trabalho se encerra às dezessete horas). Ele anuiu, disse-nos o seu nome.
Refeitos, fomos à visita breve e com o compromisso de devolver a chave tão gentilmente emprestada. Curioso foi que, tão logo chegamos ao lugar, minha mulher abriu o cadeado e deixou-o com chave e tudo junto à corrente.
Entrei em seguida e vi a cena. Como o seguro morreu de velho, retirei chave com cadeado e tudo e entrei no lugar para minha parte na visita. Não se passaram cinco minutos, percebi que entrava no lugar um cidadão com cara de contrito.
Pensei: - este está como nós, deve ter sido vítima da antecipação do horário e veio visitar alguém.
Retirei-me do lugar e minha mulher ficou por lá ainda fazendo suas orações e adornos no vaso do túmulo visitado. Passei pelo cidadão que me se apresentou como Presidente da Câmara e perguntou:
- Quem lhes entregou a chave do portão?
- Respondi-lhe que foi um funcionário (Nesta hora é bom ser apenas funcionário para não ser responsabilizado). Como era tempo de política, fiquei esperto e reduzi todas as possibilidades de informação, vai que por um lapso a oposição e a situação se peguem numa questão de vida, justamente pelo portão do cemitério, a coisa ficaria preta para alguém.
Pediu-me a chave: eu disse que cabia a mim devolvê-la e esperei que o homem, agora com cara menos contrita retornasse da visita que ele disse que faria. Vi que ele ligou o celular e falou com alguém. Esta visita parecia mais viva do que a cena apontava.
Em alguns minutos ele retornou. Passou por nós. Minha mulher já andava um pouco apreensiva e temerosa de que o funcionário X, se descoberto, poderia ser a vítima do portão fechado.
O Presidente disse que se eleito entraria em seu oitavo mandato como vereador. Deu um até logo e saiu com seu carro estampando o nome do candidato a Prefeito e o dele. E foi-se embora vagarosamente como a vida do lugar.
Zarpamos para o Almoxarifado. Lá não estava nem X, que dirá o companheiro Y. Entreguei a chave a um grupo de funcionários que estavam sentados esperando a vida soar dezessete horas
Não sei mais nada, além disso. Fiquei a imaginar o que tivera passado pela cabeça do homem da casa das leis, o que pensava X sobre o episódio chave e a dos colegas de ofício ali sentados. Suponho que alguém imaginou ser a TV ou um jornal ali espionando a lentidão da vida que pulsa na cidadezinha, onde a política, nesta época, é quem dita o ritmo e dá um movimento diferente ao ambiente, ainda que seja preciso abrir o cemitério após o expediente.
 
São José do Rio Preto, 07 de outubro de 2012. Dia de eleições municipais.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Agita Galera 2012


Mais um dia de aula. O centésimo vigésimo quinto dia do calendário escolar de dois mil e doze. Na escola estadual Prof. Walfredo de Andrade Fogaça, em São José do Rio Preto, a manhã gelada de trinta e um de agosto, na quadra coberta da escola, não espantou nem a grande maioria dos alunos, nem parte de seus pais, para o tradicional dia do agita a galera, que marcaria a primeira hora letiva do dia.
O programa tem por objetivo promover a prática de exercícios físicos e estimular a coordenação e atividade motora dos alunos da rede estadual. Também faz parte da proposta do programa promover o estilo de vida ativa e levantar a discussão sobre a importância das atividades corporais e motoras para a promoção da saúde nas escolas da Rede Estadual.
Para o presente ano, a equipe gestora e docentes preparou-se para o evento dentro do espírito folclórico. Exercícios físicos e coordenação motora, promotores da saúde, na toada dos bois de Paritins, que, de repente, invadiu a escola com a ginga, o movimento, o calor da arte amazônica.
Antes de representar a arte da cidade dos Bumbas caprichoso e Garantido, os alunos mergulharam, por assim dizer, nas ondas da rede e pesquisaram tudo o que vem da cultura mágica e alucinante da gente paritinense.
A cor vermelha do Boi Garantido misturou-se ao azul da escola Walfredo e também o tom do Boi Caprichoso, e tomou formando um mar rubro-azulado pela quadra da unidade escolar.
A agitação da galera foi marcada por alongamento e atividades aeróbicas, finalizando com a coreografia da música Vermelho, ponto máximo do ritmo que envolveu, embalando alunos, professores e muitos pais, tanto os do período da manhã, quanto os do período da tarde.
O Projeto Badminton: com a peteca para cima foi apresentado aos pais, por meio de demonstração dos aparelhos que envolvem a modalidade esportiva, em momento de gala do dia de agitação, objetivo do projeto. Garbosos, elegantes, alunos de ambos os períodos, desfilaram e apresentaram as raquetes, as petecas, a bolsa porta-raquete a todos os presentes. O desfile mantinha os olhos das crianças fixados nos equipamentos que, certamente, farão de sua cabeça, a extensão do projeto: para cima.
Como o evento avizinhava a Semana da Pátria, foi de bom tom, com os alunos perfilados, na abertura da apresentação da turma da tarde, demonstrar aos pais o trabalho musical que a unidade escolar faz com seus alunos, cujo objetivo é cantar e interpretar músicas de qualidade. Destaque-se aos hinos pátrios. Então, foi a vez do Hino da Independência, com todas as suas estrofes, a ganhar voz no coral de mais de trezentas vozes. Para a alegria dos pais, avós, tios, irmãos, padrinhos, o momento foi mágico. 
Disse-me, em particular, uma senhora, jovem avó: que alegria, diretor, fiz uma viagem pelo tempo e retomei a minha escola, o rigor das comemorações, a ordem, a postura dos alunos, diante daqueles momentos de civismo obrigatório. Quanto medo, quanto temor! Hoje, com alegria, crianças pequenas cantam alegremente a Brava Gente brasileira. Alegria muito grande invade meu coração, senhor Diretor.  
O pequeno Yan, do 1º ano C, aluno da Prof.a Cleide, dono de uma voz infantil de seus seis anos de idade, voz esta com direito a vez, foi o centro das atenções ao entoar, sem erros as palavras difíceis do Hino, composição de Evaristo da Veiga, e esmerava-se mais quando cantava e encantava o estribilho e fazia vibrar ainda mais o acorde do desejo da brava gente brasileira em uma voz ainda desafinada por estar em formação. Sem dúvida, Yan e a maioria dos alunos de apresentaram um cântico bonito, encantador, pleno de cidadania dos novos tempos de escola.
Não poderia fechar esta escritura sem coletar e apresentar algumas das opiniões de nossos alunos, afinal, sem o entusiasmo da equipe docente, sem a ativa participação dos funcionários e colaboradores, e a efetividade da entrega dos alunos, o agita seria algo desagitado.
Gerson, do 5º ano D escreve: achei muito legal esta atividade, pois o esporte é essencial ao desenvolvimento das crianças. Meus pais não puderam vir, mas quando contei a eles tudo o que aconteceu, eles ficaram maravilhados com tudo. Pena que é o meu último ano nessa escola, mas tenho orgulho de ter participado de todos os Agita Galera que já teve desde 2008.
Mariane, também do 5º ano D afirma: Diretor, adorei, foi muito legal. Meu pai também adorou. A minha parte preferida foi a hora em que todo mundo dançou a coreografia do Vermelho. De manhã acordei bem cedo, mas valeu a pena. Todos se divertiram.
Ana Carolina, do 4º ano F escreveu: gostei muito do Agita Galera da minha escola. O diretor também participou e no final deu uma ginástica bem bacana para a gente. Achei genial as crianças vestidas de vermelho.
A opinião de Ana Carolina converge com o que afirma Luiz Eduardo da mesma turma: que legal que todos meus colegas vestiram-se de vermelho por causa do Boi Garantido.
Para Mário, do 5º ano D foi agradável o agita galera desta sexta-feira. Gostei da atuação da professora de Educação Física e a sua, no final, fazendo uma demonstração de ginástica. Diverti-me muito naquele dia, com todo mundo de vermelho dançando muito legal. 
Adriele, do 5º ano C afirmou: foi muito legal, porque a gente dançou, fez alongamentos, ginástica e todas as pessoas gostaram: principalmente o meu pai. Foi ótimo. A opinião da aluna encontra eco no que depõem Gabriela Cristina e Polyane Costa da mesma sala: foi muito bom, muito especial a coreografia, linda, da qual meus pais muito se orgulharam.
Palavras escritas pelas crianças em suas verdades, não restam dúvidas de que o objetivo do Agita 2012 foi mais do que alcançado. Parabéns, equipe Walfredo!


São José do Rio Preto, 03 de setembro de 2012.   

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

De palavras e cinzas



Era quase carnaval. Naquela manhã de quinta-feira não garoava mais na Terra da Garoa. A estação Paraíso do Metrô mais negava que confirmava seu nome de batismo. As pessoas esperavam pelo trem como a última esperança.
De repente, “fui entrado” num dos vagões. Como um troféu, consegui um lugar. A meu lado, sentada, uma senhora vociferava contra o serviço ao qual paga, apesar da idade. Bradava, à busca de se fazer ouvida, pela multidão que, agarrada ao que podia, parecia alheia às queixas de quem se dizia “louca, maluca”, pelos anos que lhe arcavam o corpo cansado, todavia uma alma em luta.
Ia para as Clínicas. Segunda razão de seu desconforto: soube de véspera, que o exame da neta, há tempo marcado, fora cancelado. A procurar saber o porquê do cancelamento, esbravejou que a “mocoronga” que viera atendê-la no balcão informou sobre os novos procedimentos para exames especiais.
De olho vivo nos passageiros do trem-sardinha, a idosa cidadã disse que “faria o diabo” naquele Hospital e, se preciso, enfrentaria Diretores, mas que o exame – “que não é de graça como pensa o povão” – seria feito e como seria!
Seria sim, porque, segundo ela, os políticos não sabem o que é fila, vila, favela, senha, fome e desesperança. A cada necessidade, um assessor, um ajudante, sempre pronto a lhes fazer as vontades, a preços custeados pelos pobres.
Não resisti à curiosidade e quis saber o nome da guerreira do trem. O trem parou nas Clínicas, Alcineide apeou. O vagão a ouviu, entretanto, ninguém se moveu, ninguém a acompanhou, ninguém empunhou sua bandeira. As dores e lamentações da pobre mulher parecem ter saído do trem quando ela desceu na estão Clínicas. Sua dor, certamente não sairá no jornal. Penso que nunca mais verei Alcineide. Temo uma coisa: que suas palavras sejam como as cinzas dessa quarta-feira.


São Paulo, fevereiro de 2008.
Texto originalmente publicado no Jornal Bom Dia.

Classe de Marina


As coisas, de fato, mudam. “Só o que está morto não muda”, é verso de Edson Marques, pleno de razão.
Há anos já quase esquecidos, na pequena Mirandópolis, havia um grupo escolar e nele,  uma classe meio que separada do conjunto da unidade: a da professora Marina.  Engraçado que a gente não sabia nada sobre a classe. Uma coisa era certa: as crianças não separadas morriam de medo de frequentar aquela turma. Os pais eram os primeiros a aterrorizar os filhos contra a temível classe: estudar muito, não repetir o ano. Nada em razão da professora – aliás, pessoa muito doce em minhas lembranças - mas pelo labor que ali se construía e que se percebeu com o tempo: uma classe especial.
O tempo que flui traz mudanças.... ainda que sofridas, suadas, doídas, mas até faz mudar.
É tempo de inclusão: desafio provocador da melhoria da qualidade da educação escolar, como direito à educação em sua plenitude e desmistificar a riqueza da diversidade. A transformação da escola – ao entender que a trajetória estudantil não é um rio perigoso,  ameaçador - terá a inclusão como consequüência, mesmo que ainda se desafine a canção.
É impossível conter a correnteza do rio ante a força de quem deseja represar seu curso, e já se pode declarar sobre o direito à igualdade quando a diferença inferioriza ou quando a igualdade descaracteriza os seres humanos.
Portanto, ao tomar todas as crianças e adolescentes, sem discriminação, como titulares de direito à educação, reconhecer e valorizar a diferença, certos das dificuldades, não deverá haver temor em estudar e mudar: seja com Marina, Cida, Ariane, Eliane, Sirlei e outras professoras.


Artigo originalmente publicado no Jornal Bom Dia, em 2009.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Presente especail


Minha filha nasceu em agosto de 1976 à época das Olimpíadas de Montreal. O sucesso de então na Ginástica Artística era a romena Nádia Comaneci, vitoriosa em suas acrobacias, responsável pela alegria de muitos apreciadores do esporte. A ginasta tinha um hábito que particularmente me chamou a atenção: colecionava bonecas. Eram mais de duzentas, àquela época.
Engraçado como os pais, em seus devaneios, sonham no lugar de seus filhos. Talvez devesse perguntar-lhes se é possível fazer isso. Não sei, mas nem sempre eles podem responder por isso, especialmente quando são bebês. Por uma época, imaginei que minha filha, a exemplo de Comaneci, fosse desenvolver o mesmo hábito a colecionar, conservando suas muitas bonecas ganhadas.
Não o fez: brincou muito com elas, pintou-as, maquiou-as, destruiu – pela liberdade e direito de brincar, quase todas suas bonecas. Conservou, a seu modo, uma da qual gostava muito: Amelinha (hoje seria a boneca empreguete e, talvez, voltaria com sucesso total; nem sei porque a Estrela não pensou nisso ainda, pode ser o anúncio de uma venda como água).
Mas, falando em sonho, gosto das frases de minha mulher, apreciadora dos sonhos e do direito que se tem em fazê-los, construí-los, projetá-los em devaneios da vida em suas múltiplas possibilidades. Como ela sonha, projeta, arquiteta suas cosas tão pessoais e especiais. Até admito que ela esteja certa.  Sonhos.
Hoje, seis de agosto de 2012, em épocas iguais de Olimpíadas, Arthur Zanetti, coincidentemente, fez a alegria do Brasil com a segunda medalha de ouro do país, na ginástica artística e é o dia em que se celebra o aniversário de Liza Mirella, minha filha. O sonho de Zanetti se concretizou: é possível afirmar que ele tivera sonhado muito por tal conquista.
No dia em que comemoravam os meus sessenta anos, em 2012, recebi um grande presente de minha filha e de meu genro: a anunciação de que um bebê estava vindo ao mundo e o tomei como presente de aniversário – presente único, especial, o melhor deles já recebido, ora embalado e a ser embalado pela vida que se transcorre quando o nenê se apresentar entre nós, neste mundão de meu Deus.  Ainda não havia conseguido juntar as palavras para brindar meu presente (todos os outros perderam a graça após a anunciação, ainda que queridos e bem recebidos). Ensaiei escrever uma crônica, um artigo, uma reflexão: nada me brotava; fiquei a imaginar as benesses da vida.
O dia de hoje quase está por acabar. È o aniversário da mãe de meu futuro neto ou neta. Ansiei escrever algo. E está sendo construído reflexivamente, em forma de prosa, a homenagem ora expressa, como carinho, como texto-presente que se publica, posto que não foi escrito em vão.
Mexendo em meus guardados eletrônicos, encontrei uma charge recebida por Liza Mirella por seu amigo Pelicano, num de seus aniversários, quando ambos militavam juntos para distribuir as boas e as novas pelas linhas do Bom Dia Rio Preto. Linda homenagem, da qual me sirvo para ilustrar este registro.
O dia dos pais se aproxima novamente. É bom o exercício, apesar de nossas falhas, nossos equívocos, nossas ansiedades. Como tudo na vida é exercício que se aprende e que se pode ensinar.
Encontrei uma oração pelos filhos em uma das redes sociais. Uma bela súplica. Deixo aqui dois versos que me fizeram pensar mais profundamente sobre o valor dos filhos, quando se é pai e se treina (se é que é preciso), ser avô. Meu Senhor, quero te louvar e agradecer pela vida dos meus filhos. (...) Que eu possa ser para eles, o pai/mãe amoroso (a), sincero(a) e amigo(a) que precisarem em qualquer fase de suas vidas.
Com um pouco de Saramago fecho esta homenagem: filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos de aprendermos a ter coragem.
Que a nova geração de minha família cresça neste ato: coragem.
Rio Preto, 06 de agosto de 2012.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

PAPÉIS GUARDADOS


Mudança é sempre bom, apesar de trabalhosa. Ainda que o texto Mude, de autoria polêmica, recomende ou sugira algumas ideias, vale retirar dele algumas leituras sobre o ato de mudar: mudar de rua, a cadeira de lugar, tomar outros ônibus, corrigir postura, comer menos, arrumar trabalho mais digno, mais prazeroso e tantas outras propostas.
Pois bem: mudei-me de casa recentemente. Não sei se segui o poema, mas valeu a pena tê-lo feito. É sempre bom decidir que a felicidade é a chave de entrada da porta da nova casa.
E digo felicidade de mão cheia: um novo canto para cantar novas alegrias, ainda que, por ora, entre caixas e pacotes, mas tudo tomará seu lugar, outras coisas serão mantidas, outras, ainda, serão descartadas.
Foi o que aconteceu ontem ao abrir uma caixa e rever coisas guardadas há algum tempo. As caixas, estas sabem segredos silenciados no escuro e na fita gomada que as vedam. Sim, sabem sim.
É sobre este segredo que me debruço ao falar de folhas rasgadas. Rasguei várias e diversas contas e faturas pagas (que bom que hoje há declaração de quitação). De repente, em meio a coisas de escola, deparei-me com duas folhas distintas, do mesmo ano de 2005, apesar de serem contemporâneas, estavam armazenadas distante uma da outra.
De ímpeto, eliminei a primeira: um telegrama de uma instituição de ensino na qual trabalhei, por meio do qual, seu diretor me convidava a comparecer no local no dia seguinte para tratar de rescisão contratual, já que o órgão não mais precisaria de meus préstimos profissionais. Não sei por que guardei o papel, talvez porque a gente guarde coisas inúteis como comprovação de tantas inutilidades da vida, uma demissão, por exemplo.
Não guardei o papel com raiva, mas com raiva o rasguei por tê-lo guardado entre algumas preciosidades.
E aí entra o segundo texto, ora conservado. Trata-se de um texto intitulado “Você é muito especial”, assinado pela autora, uma ex-aluna da instituição que me dispensou naquele ano. Diferentemente do telegrama, o relato tem sua poesia, sua beleza, sua arquitetura de verdade sobre a pessoa que o produziu.
É um desenho que revela a vida da pessoa, sua história, sua trajetória, suas dificuldades, a perda dos pais, do irmão, enfim, uma história acidentada de alguem que começou a trabalhar aos onze anos e só retornou ao meio acadêmico bastante tempo depois.
E a riqueza de detalhes do texto me fez ver que este deveria ser mantido no lugar onde guardamos coisas das quais não queremos nos separar. Pois bem, a ex-aluna relatava no texto da alegria em ter ingressado no Curso de Pedagogia, em 2005. E como ela estava e se sentia feliz por suas conquistas, em especial por ter chegado à Universidade após uma vida escolar acidentada, e foi na suplência que ela encontrou degraus para isso. O relato trazia um lamento da estudante sobre suas deficiências acadêmicas, dado o terreno acidentado sobre o qual caminhou com dificuldades entre a escola que acolhe e a que é acolhida quando se tem condições para o estudo, mas as perdas não eram vistas como derrotas, pelo contrário, como estímulo a perseguir novos objetivos. Vale recortar do texto o que dizia a moça: (...) “ Enfim iniciam-se as aulas, para mim um mundo novo. Quantos obstáculos encontrei; sentia-me tão diferente de todos que ali estavam; pensei em desistir. Quantas vezes me questionei sobre o que estaria fazendo aqui, pois não sei ler, nem sei escrever. O tempo passou e tudo foi se encaixando: descobrir que tenho capacidade. Portanto, Professor Elísio, conto com sua ajuda; sua garra me enconraja. Sou uma aluna invejosa assumida. Quando algum aluno diz alguma frase que você gosta, em seguida você responde, gente, que bonito, que bom comentário, um dia eu vou ouvir isto de você. Por favor, professor, mantenha este carinho com a classe, hoje não consigo mais me viver sem a faculdade e você faz parte dela. Se você deixar de brilhar, deixarei de crescer”.
Observando o relato nota-se que a emissora disse não saber ler, nem escrever: ledo engano; colocou com maestria seu sentimento mais profundo pelo ato de viver, de recuperar-se, de retomar um tempo perdido momentaneamente. O texto da autora, este sim mereceu outra sorte: não ser rasgado da caixa de coisas – às vezes inúteis - que juntamos ao longo da vida, pois dá exemplo de superação, de esperança, da antítese entre a frieza como uma empresa – nunca uma família como se costuma dizer no vazio dos discursos – trata um ex-funcionário.
A vida é assim: um papel aqui, outro acolá e o seu desenho inacabado se vai rasgando ou guardando. Escolhi guardar o segundo dos textos aqui referido e o homenageio com Fernando Pessoa, nos versos:
"Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

Álvaro de Campos – Fernando Pessoa.