quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Carnes sobre os túmulos


Um dia bem distante, a pequena e laboriosa cidade despertava de sua rotina: vida pacata, o ir e vir lento do interior, observado por olhares espiões dentre as janelas. Tudo estava acomodado em seu lugar.
Na calmaria do dia que seguia seu curso, de repente, a cidade toda acordou de sua letargia. Da última parada do lugar – o cemitério da saudade – vinha a notícia de que “carnes emergiam de algumas sepulturas”, fato bastante para inebriar o pequeno canto do noroeste paulista.
A população voltou sua vida ao centro do mistério. A curiosidade apressava a ida ao local do acontecimento misterioso. Crianças, mulheres, trabalhadores, autoridades corriam num frenesi incontrolável. Corria-se para a “terra dos pés juntos” da forma como se podia: de bicicleta, de perua, a pé, de carona, de charrete. Importava, àquela época, conferir a estranha novidade.
O administrador do cemitério não sabia mais o que fazer, nem o que responder aos curiosos e à imprensa – àquela época apenas uma rádio e um jornal semanal na cidade.
Quando tudo parecia ameaçar a tranqüilidade da cidade – e da Chácara do Marcelino – como era nomeado o lugar do descanso - chegou a informação oficial: a carne que “brotava dos túmulos” era o excesso de peso de um avião, que transportava o produto de um frigorífico da região a São Paulo, lançando o sobejo sobre o lugar do repouso e do descanso dos falecidos da pequena Mirandópolis.


São José do Rio Preto, fevereiro de 2013.
Texto original publicado no Jornal Bom Dia – em 2008.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Prazeres & deveres






Eduardo Girão oferece uma frase expressiva. Elejo-a como brinde ao momento vivido:  “Há duas fontes perenes de alegria pura: o bem realizado e o dever cumprido."  Foi assim que me senti ontem e é assim que inicio, hoje, minhas reflexões sobre os resultados da III Feira de Arte, Ciências e Letras da EE Prof. Walfredo Fogaça.
Depois de muitos anos de magistério, apesar de toda a experiência, de toda a luta empreendida para arquitetar a arte de ensinar-aprender, não obstante toda a tensão gerada pelos compromissos profissionais, confesso: recomeçar um ano letivo não é nada fácil. Concluí-lo, ainda que com todos os custos, envolvimento, etapas, encontros e desencontros, é uma constatação de se ter levado o dever a cabo.
A feira de Ciências da escola (assim mais popularmente nominada) aconteceu no dia 05 de dezembro de 2012, fazendo parte do plano de ação do ano todo. E aconteceu de forma ímpar. Escola viva, escola de gente, presença maciça de pais de alunos, dos estudantes, num momento de congraçamento e demonstração das realizações do ano. Muito trabalho, reforce-se, estamparam as paredes e demais espaços escolares.
A área de Educação Física abriu magistralmente os trabalhos, ao som de Brasileirinho, momentos em que os estudantes puderam demonstrar as habilidades aprendidas na Ginástica Rítmica Desportiva, com todo o aparelhamento necessário, além da demonstração do Badminton, do tênis de mesa e do pebolim. Espetáculo de crianças: com leveza, com graça e com compromisso de gente miúda, determinação de gente grande.
Nas salas de aula, cada professora do 1º ao 5º ano, procurou evidenciar a obra de seus alunos: livros de histórias narradas, cadernos e pastas com as produções, o doce canto da aventura de aprender a ler e a escrever (coisas do 1º ano), os projetos realizados como, por exemplo, os meios de comunicação, os animais selvagens e animais marinhos, o projeto criança como eu, o projeto fábula, o conto, o reconto, a confabulação, as atividades matemáticas por meio do lúdico, e tantas outras produções, num conjunto de fazeres de uma escola, colocados aos olhos dos convidados num dia de visitação.
Cabe realçar a efetividade do interesse demonstrado quanto aos stands dos quintos anos com seus experimentos científicos. A presença dos estagiários do projeto PIBID, desenvolvido pela Unesp – Educação em Ciências - em parceria com a escola, foi de grande valia ao processo e, possibilitou mostrar o envolvimento da escola na pesquisa a qual se envolve com aqueles órgãos. Com efeito, a ciência aprisiona o olhar e fascina as pessoas.
Não menos importante que tudo foi ver a alegria e poder entrar na réplica da casa de Jorge Amado, em Rio Preto, como a classe de 5º ano resolveu nomear o espaço, como forma de celebrar o centenário daquele autor baiano, por meio da divulgação de suas obras, seus personagens, seu enredo. 
Coube ao outro 5º ano celebrar o rei do Baião, com o entusiasmo de toda a obra contada e cantada pelo imortal Luiz Gonzaga. Faltou apenas servir o tradicional prato “baião-de-dois”. A professora até planejou isto, no entanto resolveu se aquietar para não “dar desando no povo”.  
Foi possível assistir e captar a alegria vinda dos olhos dos pais em suas apreciações espontâneas, a colocação dos professores, e, sobretudo, a fala natural das crianças. Isto faz pensar no que diz Mahatma Gandhi: a alegria está na luta, na tentativa, no sofrimento envolvido e não na vitória propriamente dita.  Creio ter sido este o sentimento de todos da escola, ontem, todos os atores envolvidos no processo.
Não tivemos visitas oficiais, não, nenhuma. Nem a imprensa soube para contar a nossa história. Se é nossa a história, creio, cabe a nós guardá-la da melhor forma possível; talvez nas fotos que os pais (em suas muitas câmeras e celulares) fizeram e curti-las, compartilhá-las, colocá-las em porta-retratos, ou, quem sabe, algum dia, deletá-las.
Para finalizar, empresto a fala de John Lennon que diz: Quando eu tinha 5 anos, minha mãe sempre me disse que a felicidade era a chave para a vida. Quando eu fui para a escola, me perguntaram o que eu queria ser quando crescesse. Eu escrevi “feliz”. Eles me disseram que eu não entendi a pergunta, e eu lhes disse que eles não entendiam a vida.
São José do Rio Preto, 06 de dezembro de 2012.  

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Abajur sem luz


As luzes da ribalta se apagaram com a última apresentação da peça O Abajur Lilás, em meados de março de 2008, num canto da Rua Frederico Abranches, Bairro de Santa Cecília, em São Paulo.
A peça, ambientada num mocó, focaliza o drama de personagens socialmente marginalizadas: Dilma, Célia e Leninha, profissionais do sexo, e evidencia no tempero o entojo à existência humana.
As prostitutas, para fazer cumprir suas tarefas, exibem cicatrizes cortadas pela vida em navalhas cegas, são exploradas por Jiro, o cafetão-chefe, no melhor estilo de motivação à competitividade, à produtividade e à qualidade total, voltados ao lucro dos homens de negócios.
O ar, no “inferninho”, cheirava a cachaça, a perfume ordinário emanados dos corpos cansados de guerra, pulverizado com o odorizador-metáfora do medo, do autoritarismo, do terror, das doenças, do vazio de viver, das angustias humanas, como se todo aquele aroma pudesse apagá-los.
O samba – esse estilo musical afro-brasileiro, ritmo que nos faz vibrar entre as lambadas e o  que se samba na lida – trouxe como trilha sonora a vida que se enreda: “Do jeito que a vida quer”, valsando com “As mariposas” para, no final, postar-se “De frente pro crime” e assistir quase que extasiado: “tá lá o corpo estendido no chão...”.
Célia rebelou-se contra a tirania do sistema: virou a mesa e o abajur. A opressão, o mando, a “cala-boca”, no entanto, silenciou vozes, afogou cabeças, torturou o corpo, afastou o perigo.
A personagem Célia desvela a força movedora do ser humano ao resgatar sua dignidade, mesmo quando impera a força bruta! Quedou-se o abajur lilás, vivem, no entanto, as idéias de Plínio Marcos.

Aposentadoria: o apagar das luzes



Ruben Alves destaca algo de que muito se fala: o sofrimento dos professores e, olhando o avesso das coisas, prefere falar da alegria de ensinar, sobretudo, aquela que torna o docente ensinante da felicidade.
No entanto, observando o cotidiano da escola, nota-se que algumas lições desaprendidas apagam, aos poucos, desejos e profecias de ensinar a felicidade.
Das conversas com os professores – daquelas distantes do lugar comum – indisciplina escolar, classes lotadas, más condições de trabalho, gestão autocrática, desinteresse, analfabetismo e outros, quase sempre, fala-se sobre o desencanto do final da jornada.
Chega-se a ela pelo reverso, com a constatação de que, do trabalho, restou apenas a promessa de fidelidade jurada ao serviço público, o ofício cumprido. Estampa-se que o empregador público acrescentou pouco numa passagem de 25, 30 ou 35 anos, cujo horizonte perdido se apaga no vazio do reconhecimento da pessoa do profissional que é o professor. Que pena que as coisas assim se desenhem. E, voz corrente, o discurso do desencanto faz coro cada vez maior.
Fico a pensar no final da carreira de muitos professores e lamento a arquitetura que se apresenta no descortínio das luzes. A hora de ensarilhar das armas acontece e entre a alegria de ter sido profissional e a melancolia do cenário, remeto-me ao que Alves sugere sobre a indagação que se faz ao docente sobre a profissão e que este deve responder: sou um pastor da alegria ... mas alerta - apenas seus alunos, mestre, poderão atestar isso.

Rio Preto, 08 de novembro de 2012.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

DIA DO PROFESSOR


Hoje é dia do professor. A data anda meio esquecida – não pelos profissionais da área, mas por grande parte dos segmentos da sociedade brasileira.

Não é esse, certamente, o motivo para não celebrar – com júbilo – o fato de professar a profissão docente, que acontece no cotidiano das escolas, mesmo quando o mar pareça estar para poucos peixes.

É fato que alguns professores remam com os braços doridos, arrastados por ondas gigantes, solapados por ventos fortes, desanimados com a pesca diária. O arrastão nem sempre tem motivado a busca do bom pescado.

Há, também, aqueles que ainda vêem nos ventos oportunidades de mudanças e conseguem compreendê-las como necessárias à descoberta doutros mares, doutras terras, e, então, reaprender para decodificar outras cartas de navegação.

Há os que ainda se encantam com o mar, não menos do que com os peixes, e, nesse entrecruzar de encantamentos, tecem redes, trazem o pescado bom para o barco e o encaminha a inesperados destinos.

Um dia, desses marcados movimento da vida, no milagre da multiplicação dos peixes, o remador-ensinante encontra um peixe ali numa clínica, num escritório, numa loja, alguns na magistratura, na indústria, no esporte, no campo, e muitos outros que retornam ao grande oceano onde se aprendeu, para, então ensinar e atravessar canais, ondas e ventos novos.

Por isso, hoje é dia de festa e de vida! Dia do Professor, apesar das águas revoltas, dos peixes não fisgados e da própria necessidade de recuperar a identidade profissional. É feliz quem, ao viver da pesca, a ela dá, não tira o mar!

 

 

 

Texto originalmente publicado no Jornal Bom Dia Rio Preto – outubro de 2008

domingo, 7 de outubro de 2012

De portões fechados


Setembro: um mês esperado. Não explico o porquê da espera, mas neste dois mil e doze, minha espera por ele foi grande.  Possivelmente os dias quentes e secos de agosto forçaram tal espera ainda mais, talvez a esperança de um bocado de chuva, talvez dias amenos movessem a esperança por “entrar setembro”.
E os dias de setembro vieram. O ar continuou seco e pesado por uns dias até que a desejada chuva chegasse para dar ao mês a cara dele. E trouxe sorriso e trouxe frescor e trouxe chuva, vida, afinal.
Curiosamente, estava num período de final de férias e fiz uma única curta viagem.  De passagem pela região em que transitava, resolvi visitar o túmulo de um ente querido numa pequena cidade. O cemitério local não é do tipo marcado com tumbas imponentes e mausoléus elegantes. Não! Há algumas peças bem antigas que remetem ao tempo da história dormida da gente do lugar, alguns túmulos simples, mas revelam ali fotos de seus ilustres moradores.
A maioria das covas do lugar é identificada com placas discretas no chão, sem apresentar mausoléus ou imagens de santos suntuosas. Os túmulos mais antigos deixam letras, palavras e homenagens nas singelas lápides já quase se apagando. Tudo é muito típico da paisagem no lugar, muito verde, muitas árvores, inclusive uma seriguela em frutos, percebi de minha última estada. Como a pequena cidade, o seu cemitério parece revelar a vida daquela paragem.
Na entrada do prédio, um pouco distante do centro da pequena cidade, uma placa sinaliza que o espaço público é aberto diariamente à visitação, das 08h00 às 17h00 horas. Cheguei bem defronte do portão e vi que ele silencioso velava pelo silencio do lugar e ainda eram 16 h e 30 min. Estranhei o fato e até imaginei que fosse feriado na cidade, em plena segunda-feira. Resolvi descer as ruas das cercanias e perguntar a algum vizinho sobre o ocorrido, mas não havia nenhum vizinho à vista ou em casa.
Desci um pouco mais a rua e vi três rapazes ao redor de um carro. Pensei comigo que eles talvez soubessem algo. Ao perguntar-lhes eles disseram ter visto os dois funcionários descendo ao Almoxarifado da Prefeitura alguns minutos antes e sinalizaram que eles ainda estariam por perto.
Resolvi acompanhar o cortejo dos dois funcionários que, segundo informaram, estavam de bicicleta, mas que eles a empurravam, não a montavam, logo a razão de não estarem longe dali. Alcancei os moços e perguntei-lhes sobre a razão do fechamento do campo santo, ao que me disseram que doravante o lugar fecha mais cedo, pois os funcionários precisam bater o ponto e ir embora.
Ao conversar com eles disse que a placa marcava dezessete horas o tempo de fechar as portas. Eles disseram que era a nova lei. Perguntaram se era algum sepultamento ou afim, e respondi que apenas queria levar flores e visitar um túmulo de parente.
Um deles se prontificou a voltar. Minha mulher ficou com dó e não achou justo tirar o sossego dos rapazes ao final de um dia de labuta. Mas, negociou pedindo a chave do cadeado do portão principal emprestada que, de pronto foi atendida.
Perguntei o nome dele e pedi que me esperasse que retornaríamos antes das dezessete a fim de não causar atraso (supondo-se que a jornada de trabalho se encerra às dezessete horas). Ele anuiu, disse-nos o seu nome.
Refeitos, fomos à visita breve e com o compromisso de devolver a chave tão gentilmente emprestada. Curioso foi que, tão logo chegamos ao lugar, minha mulher abriu o cadeado e deixou-o com chave e tudo junto à corrente.
Entrei em seguida e vi a cena. Como o seguro morreu de velho, retirei chave com cadeado e tudo e entrei no lugar para minha parte na visita. Não se passaram cinco minutos, percebi que entrava no lugar um cidadão com cara de contrito.
Pensei: - este está como nós, deve ter sido vítima da antecipação do horário e veio visitar alguém.
Retirei-me do lugar e minha mulher ficou por lá ainda fazendo suas orações e adornos no vaso do túmulo visitado. Passei pelo cidadão que me se apresentou como Presidente da Câmara e perguntou:
- Quem lhes entregou a chave do portão?
- Respondi-lhe que foi um funcionário (Nesta hora é bom ser apenas funcionário para não ser responsabilizado). Como era tempo de política, fiquei esperto e reduzi todas as possibilidades de informação, vai que por um lapso a oposição e a situação se peguem numa questão de vida, justamente pelo portão do cemitério, a coisa ficaria preta para alguém.
Pediu-me a chave: eu disse que cabia a mim devolvê-la e esperei que o homem, agora com cara menos contrita retornasse da visita que ele disse que faria. Vi que ele ligou o celular e falou com alguém. Esta visita parecia mais viva do que a cena apontava.
Em alguns minutos ele retornou. Passou por nós. Minha mulher já andava um pouco apreensiva e temerosa de que o funcionário X, se descoberto, poderia ser a vítima do portão fechado.
O Presidente disse que se eleito entraria em seu oitavo mandato como vereador. Deu um até logo e saiu com seu carro estampando o nome do candidato a Prefeito e o dele. E foi-se embora vagarosamente como a vida do lugar.
Zarpamos para o Almoxarifado. Lá não estava nem X, que dirá o companheiro Y. Entreguei a chave a um grupo de funcionários que estavam sentados esperando a vida soar dezessete horas
Não sei mais nada, além disso. Fiquei a imaginar o que tivera passado pela cabeça do homem da casa das leis, o que pensava X sobre o episódio chave e a dos colegas de ofício ali sentados. Suponho que alguém imaginou ser a TV ou um jornal ali espionando a lentidão da vida que pulsa na cidadezinha, onde a política, nesta época, é quem dita o ritmo e dá um movimento diferente ao ambiente, ainda que seja preciso abrir o cemitério após o expediente.
 
São José do Rio Preto, 07 de outubro de 2012. Dia de eleições municipais.