Setembro: um mês esperado.
Não explico o porquê da espera, mas neste dois mil e doze, minha espera por ele
foi grande. Possivelmente os dias
quentes e secos de agosto forçaram tal espera ainda mais, talvez a esperança de
um bocado de chuva, talvez dias amenos movessem a esperança por “entrar
setembro”.
E os dias de setembro
vieram. O ar continuou seco e pesado por uns dias até que a desejada chuva
chegasse para dar ao mês a cara dele. E trouxe sorriso e trouxe frescor e
trouxe chuva, vida, afinal.
Curiosamente, estava num
período de final de férias e fiz uma única curta viagem. De passagem pela região em que transitava,
resolvi visitar o túmulo de um ente querido numa pequena cidade. O cemitério
local não é do tipo marcado com tumbas imponentes e mausoléus elegantes. Não!
Há algumas peças bem antigas que remetem ao tempo da história dormida da gente
do lugar, alguns túmulos simples, mas revelam ali fotos de seus ilustres
moradores.
A maioria das covas do lugar
é identificada com placas discretas no chão, sem apresentar mausoléus ou
imagens de santos suntuosas. Os túmulos mais antigos deixam letras, palavras e
homenagens nas singelas lápides já quase se apagando. Tudo é muito típico da
paisagem no lugar, muito verde, muitas árvores, inclusive uma seriguela em
frutos, percebi de minha última estada. Como a pequena cidade, o seu cemitério
parece revelar a vida daquela paragem.
Na entrada do prédio, um
pouco distante do centro da pequena cidade, uma placa sinaliza que o espaço
público é aberto diariamente à visitação, das 08h00 às 17h00 horas.
Cheguei bem defronte do portão e vi que ele silencioso velava pelo silencio do
lugar e ainda eram 16 h e 30 min. Estranhei o fato e até imaginei que fosse
feriado na cidade, em plena segunda-feira. Resolvi descer as ruas das cercanias
e perguntar a algum vizinho sobre o ocorrido, mas não havia nenhum vizinho à
vista ou em casa.
Desci um pouco mais a rua e
vi três rapazes ao redor de um carro. Pensei comigo que eles talvez soubessem
algo. Ao perguntar-lhes eles disseram ter visto os dois funcionários descendo
ao Almoxarifado da Prefeitura alguns minutos antes e sinalizaram que eles ainda
estariam por perto.

Ao conversar com eles disse
que a placa marcava dezessete horas o tempo de fechar as portas. Eles disseram
que era a nova lei. Perguntaram se era algum sepultamento ou afim, e respondi
que apenas queria levar flores e visitar um túmulo de parente.
Um deles se prontificou a
voltar. Minha mulher ficou com dó e não achou justo tirar o sossego dos rapazes
ao final de um dia de labuta. Mas, negociou pedindo a chave do cadeado do
portão principal emprestada que, de pronto foi atendida.
Perguntei o nome dele e pedi
que me esperasse que retornaríamos antes das dezessete a fim de não causar
atraso (supondo-se que a jornada de trabalho se encerra às dezessete horas).
Ele anuiu, disse-nos o seu nome.
Refeitos, fomos à visita
breve e com o compromisso de devolver a chave tão gentilmente emprestada.
Curioso foi que, tão logo chegamos ao lugar, minha mulher abriu o cadeado e
deixou-o com chave e tudo junto à corrente.
Entrei em seguida e vi a
cena. Como o seguro morreu de velho, retirei chave com cadeado e tudo e entrei
no lugar para minha parte na visita. Não se passaram cinco minutos, percebi que
entrava no lugar um cidadão com cara de contrito.
Pensei: - este está como
nós, deve ter sido vítima da antecipação do horário e veio visitar alguém.
Retirei-me do lugar e minha
mulher ficou por lá ainda fazendo suas orações e adornos no vaso do túmulo
visitado. Passei pelo cidadão que me se apresentou como Presidente da Câmara e perguntou:
- Quem lhes entregou a chave
do portão?
- Respondi-lhe que foi um
funcionário (Nesta hora é bom ser apenas funcionário para não ser
responsabilizado). Como era tempo de política, fiquei esperto e reduzi todas as
possibilidades de informação, vai que por um lapso a oposição e a situação se
peguem numa questão de vida, justamente pelo portão do cemitério, a coisa
ficaria preta para alguém.
Pediu-me a chave: eu disse
que cabia a mim devolvê-la e esperei que o homem, agora com cara menos contrita
retornasse da visita que ele disse que faria. Vi que ele ligou o celular e
falou com alguém. Esta visita parecia mais viva do que a cena apontava.
Em alguns minutos ele
retornou. Passou por nós. Minha mulher já andava um pouco apreensiva e temerosa
de que o funcionário X, se descoberto, poderia ser a vítima do portão fechado.
O Presidente disse que se
eleito entraria em seu oitavo mandato como vereador. Deu um até logo e saiu com
seu carro estampando o nome do candidato a Prefeito e o dele. E foi-se embora
vagarosamente como a vida do lugar.
Zarpamos para o
Almoxarifado. Lá não estava nem X, que dirá o companheiro Y. Entreguei a chave
a um grupo de funcionários que estavam sentados esperando a vida soar dezessete
horas
Não sei mais nada, além
disso. Fiquei a imaginar o que tivera passado pela cabeça do homem da casa das
leis, o que pensava X sobre o episódio chave e a dos colegas de ofício ali
sentados. Suponho que alguém imaginou ser a TV ou um jornal ali espionando a
lentidão da vida que pulsa na cidadezinha, onde a política, nesta época, é quem
dita o ritmo e dá um movimento diferente ao ambiente, ainda que seja preciso
abrir o cemitério após o expediente.
São José do Rio Preto, 07 de
outubro de 2012. Dia de eleições municipais.
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