terça-feira, 26 de julho de 2016

Dia de avô

Todo dia é dia: de índio, de trabalho, de jogo, de levantar, de dormir, de passear. Todo dia, também é dia de avô.
Um desses dias dos dias, eis que saí para acompanhar a vovó Su a um exame. Final de tarde. O exame seria demorado – o médico ainda nem havia chegado e já era a hora de o exame acontecer – “todo dia é dia de aguardar, também”. Vovó Su sugeriu que eu pudesse esperar ou ir a algum lugar e retornar.
Entre a ida e a vinda, fui parar num dos Sebos da cidade à procura de livros. Entretive-me com as obras da livraria, escolhi algumas delas e retornei para a clínica onde vovó Su ainda esperava pelo médico e pelo exame.
Antes disso, porém, girando pela região onde o Sebo foi parar após a mudança de seu endereço, uma placa de escola infantil chamou-me a atenção. Descendo, devagar a rua, dado o trânsito que marca a saída das escolas em seus turnos, pelo retrovisor vi um carro preto, conhecido, estacionado, com o seu dono parado ao lado.  
Adiante, parei o meu carro, e dirigi-me ao lugar onde estavam o carro e o seu condutor, meu genro Paulinho, que fora buscar o filho no final da jornada escolar do dia. E a criatura feliz estava dentro do carro em seu banco.
Que encontro! Que dia de avô tive naquela tarde fria de junho. Meu neto Theo deu-me um desses presentes que criança costuma dar e, de repente, quebrar as certezas, as rudezas, as idiossincrasias de gente grande: o afeto de neto, sem preço, sem custo, sem limites.
Tirei o menino de seu banco, que, a meu colo, olhava-me com um amor tão profundo e conversava muito tentando – a seu modo expressar a sua felicidade, ou seria a minha felicidade – agora não sei mais dizer: era tanta a felicidade ali, em frente à escola do garoto.
A primeira pergunta que ele me fez: - vovô, por que você não está em sua casa?
Fiquei pensando em como responder à lógica do questionamento do menino, que me permitiu uma leitura breve (o que meu avô está fazendo em frente da minha escola, se aqui não é o lugar dele?). Pois bem, disse que estava de passagem e que iria ... - (sem que ele me desse tempo e emendou com a pergunta:  – onde está a vovó Su?
Após as perguntas iniciais, começara o festival da mais profunda alegria. O menino, em êxtase pelo fato inusitado de o avô estar em sua escola, chamou-me para ver a placa com o nome da escola, aliás as duas placas de identificação do lugar. E, aos poucos os pais dos seus colegas de turma iam chegando para apanhar os pequenos e ele, deslumbrado me apresentava aos amigos: é meu vô, seu nome é Elísio, ele está aqui, olha, olha!
Entre abraços, apertos, risos de contentamento daquela tarde festiva para nós dois,  vi passar o Felipe, o Augusto, a quem tive de segurar num braço (o outro era do Theo) para dividir o amor de avô por instantes. E vi a Luísa e vi outras crianças e vi também os pais deles. 
Discreto, silencioso, emocionado, o pai do menino, Paulinho, meu genro, tenho certeza, registrou aquilo tudo em seu coração emotivo. Vibramos, sem trocar uma palavra sequer naquela cena.
A palavra àquela hora não era de gente grande. Era o momento neto. Era a hora do menino. Era a hora do presente. Era o dia de avô, destes que acontecem. Naturalmente, cotidianamente, ou por um traçado da coincidência que, de repente, faz da rua da escola a passarela para a expressão amorosa de viver.

Obrigado, meu querido neto Theo por fazer, também, de um final de dia frio de junho, em 2016, um dia de avô. Com amor imenso, vovoLísio. Rio Preto, 26 de julho de 2016.  

3 comentários:

  1. Lindo texto! Passou como um filme diante de meus olhos enquanto o lia! Abraços deste também avô e amigo-irmão!

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    1. Caro amigo, avô, escritor, leitor! Que prazer para quem escreve ter a recompensa de linhas assim como as que desliza sobre o papel virtual. É bom demais. Pena que as mídias sociais têm deixado as leituras dos blogs meio que escanteadas, em detrimento das imagens. Pena. Um abraço.

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